
Título: A menina que tinha dons
Autor: M. R. Carey
Tradução: Ryta Vinagre
Capa: Duncan Spilling – LBBG
Editora: Fábrica 231 (Rocco)
Ano: 2014
Páginas: 384
Classificação Indicativa: 15 anos e acima
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Conteúdo
Sinopse
Em “A menina que tinha dons” conhecemos um mundo pós-apocalíptico, um evento provocado por um vírus dizimou quase toda a população mundial, mas um pequeno grupo de sobreviventes ainda luta pela vida e pela cura dentro de uma base militar fortificada. É lá que vive Melanie, uma menina de dez anos que adora a escola, ama sua professora Helen Justineau e sonha em ser Pandora, divindade da mitologia grega que possui todos os dons.
Inseridos numa rotina rígida de atividades, Melanie e seus colegas de turma são mantidos presos e isolados em celas individuais. Eles podem se deslocar apenas quando os soldados os amarram em cadeiras de rodas e os levam para mais um dia de aula. Melanie não compreende o distanciamento dos militares e o medo em seus olhares, mas não os questiona. Esta realidade é tudo que ela conhece e entende como normal. A menina, porém, é considerada especial pelos professores e pesquisadores da base por causa de sua sede de conhecimento – ela quer ouvir histórias, aprender equações – e sua vontade de descobrir a realidade do mundo exterior.
O que ela está prestes a descobrir é que o mundo exterior se mostrará, em toda sua selvageria, bem mais cedo do que ela imagina.
Livro “A menina que tinha dons”
Porque o pavor do desconhecido é mais assustador do que qualquer pavor que se pode compreender
Encontrar um livro sobre o qual nunca ouviu falar e de repente se pegar totalmente imersa em sua história, se perdendo e se encantando entre as páginas, é uma verdadeira delícia. “A menina que tinha dons”, de M. R. Carey, foi exatamente isso para mim. Para quem ama distopias e mundos pós-apocalípticos certamente vai gostar dessa obra.
À primeira vista, pode até parecer mais do mesmo, infectados, sobreviventes, ameaças constantes, a busca pela cura, mas a história vai além disso, nos leva a questionar o que define um ser humano. Biologia? Consciência? Raciocínio? Capacidade de amar? Capacidade de escolher? O livro aborda a ética científica e questiona os seus limites, o medo e o preconceito frente ao desconhecido e também a aceitação do mesmo.
“A menina que tinha dons” nos apresenta um mundo, onde um fungo, o Ophiocordyceps unilateralis, parasita de uma espécie específica de formigas, que costuma penetrar em seus corpos e atacar o sistema nervoso delas, de repente ultrapassa a barreira entre as espécies, dando um salto na cadeia alimentar, passando a se abrigar dentro dos humanos.
Os fungos, aos poucos, devoram o sistema nervoso humano, tomando o controle do córtex motor e do impulso alimentar, o que é chamado de infecção. Se propagam principalmente pela saliva, mas também pelo sangue, suor ou lágrimas. Sendo assim, a mordida, que o fungo impulsiona o humano a dar quando está com fome, nutre o hospedeiro e fortalece a ele, ao mesmo tempo em que, ele se espalha entre outros humanos através dela. É isso mesmo que está lendo, humanos mordendo e comendo humanos. Os contaminados são chamados de famintos.
Quando a primeira onda de infecções surgiu, período que ficou conhecido como “Colapso” em “A menina que tinha dons”, duas estações de pesquisa móveis foram construídas, do tamanho de um caminhão articulado, com quase o dobro de largura. Possuíam um laboratório de biologia e química orgânica de última geração, cabines para 6 pesquisadores, 4 seguranças e 2 motoristas, além de blindagem externa e lança chamas. Muitos cientistas foram chamados para encontrar uma solução para a situação, mas poucos foram escolhidos para essa missão com treinamento secreto do governo.
Essas estações foram chamadas de “esperanças verdes” e obviamente a galera da política tentou usá-las para se alavancar, mas isso não demorou muito. Tudo saiu do controle rápido demais, a infecção se espalhou por todos os lados e o capitalismo global, como sempre, seguiu destruindo tudo. Esses gênios, selecionados a dedo, desapareceram e só o que restou para o mundo, foram os reservas.
“A menina que tinha dons” nos diz que segundo a ciência, os famintos são criaturas, não mais humanos, suas mentes morreram assim que os fungos se infiltraram. Não sentem dor e são capazes de percorrer longas distâncias atrás de seu alimento, sem se cansarem. Consomem animais, mas é o cheiro do suor humano que desperta a loucura da fome neles, bem como movimentos rápidos ou ruídos altos, e quando a temperatura cai durante a noite, são capazes de detectar calor corporal. A fome deles é insaciável e além dessa movimentação para a caça de comida, eles permanecem parados, estáticos.
Beacon é o único lugar onde os famintos não chegam. Uma cidade grande onde cerca de cem bilhões de pessoas vivem, cercados pelo mar de um lado e do outro fossos e campos minados. Ali vive muitos que tentam refazer a vida pós o Colapso e outros tantos que se quer conheceram o mundo que existiu antes dele. E também há aqueles que se recusaram a ir para a cidade, preferindo ficar nas áreas externas, correndo o risco da contaminação, conhecidos como lixeiros. Pessoas que não constroem e nem preservam nada, apenas sobrevivem em busca de comida, combustível e armas. Acabaram se tornando quase tão impiedosos quanto os parasitas.
Ao exército que sobrou, restou apenas ir a campo e eliminar todos os famintos que encontrassem, bem como disputar com os lixeiros o que encontravam de alimentos e armamentos. Até que em uma busca, um recruta encontra uma criança estranha, muito semelhante aos famintos, no entanto ela possuía reações humanas que esses já não apresentavam mais. Foram ordenados a trazer uma dessas crianças e essa passou pela avaliação dos cientistas que sobraram.
Ali surgiu a curiosidade. Famintos com reações e comportamentos humanos, famintos que faziam mais coisas além de correr e comer. Famintos, selvagens certamente, mas funcionais, vivendo entre aqueles que não passavam de meros hospedeiros. Reagem da mesma maneira ao cheiro dos humanos e também consomem de sua carne, mas parecem ter uma espécie de imunidade parcial ao patógeno da fome. E aprendem rapidamente o que lhes é ensinado. Surge aí uma esperança. A ideia de uma possível cura.
“A menina que tinha dons” nos mostra que uma base militar foi construída a uma boa distância de Beacon, um perímetro foi montado e soldados vigiavam a área, liderados pelo Sargento Eddie Parks. Um novo programa de pesquisa foi feito, liderado pela cientista Dra. Caroline Caldwell, uma das que sobrou. Outros professores também foram designados a base, incluindo a Srta. Helen Justineau, que estava ali para complementar os dados físicos da pesquisa com avaliações psicológicas. Cerca de 30 crianças foram trazidas como cobaias.
Na ânsia de tentar refazer o mundo uns 20 anos depois dele ter se desintegrado, essas crianças eram mantidas em celas separadas, dentro de uma espécie de bunker que ficava na base. Tudo o que elas possuíam dentro de suas pequenas celas, era uma cama, uma cadeira de rodas e uma mesa. As paredes sempre cinzas abrigavam quadros diferentes em cada cela. E as vezes eles trocavam as crianças de cela. Nas portas tinha uma janelinha de tela por onde as pequenas viam quem passava.
Para além disso, tinha-se o corredor que levava a sala de aula e ao chuveiro. Ao longo desse corredor se encontrava todas as celas e também a porta de saída. As crianças têm aulas de segunda a sexta. Aos sábados ficam trancadas o dia todo enquanto toca uma música pelo alto falante, impossibilitando qualquer conversa. E aos domingos, passam a maior parte do dia também trancadas, a exceção de quando recebem comida e são levadas ao chuveiro.
“A menina que tinha dons” nos mostra o procedimento que é necessário se fazer para locomover as crianças famintas pelo bunker, assegurando a vida de cada um dos soldados ou civis que fossem obrigados a interagir com elas. Primeiro o Sargento Parks passa pelo corredor gritando a palavra “trânsito”, sinal para que as crianças se vistam e sentem-se nas suas cadeiras de rodas, apoiando braços e pernas nos apoios da cadeira e aguardem quietas a entrada dos soldados.
Quando o Sargento Parks entra uma cela, fica com uma arma apontada para a cabeça da criança, nisso dois soldados entram, afivelam e apertam as tiras das cadeiras em torno dos pulsos, tornozelos e pescoço dela. Nunca colocando suas mãos ou braços frente ao rosto da criança. Quando estão impossibilitadas de se mexerem, então são levadas para a sala de aula e colocadas em suas carteiras, ou, no caso do domingo, são levadas até ao chuveiro, no entanto, nesse momento, mãos e braços direitos permanecem desamarrados.
No chuveiro, elas são posicionadas lado a lado, tigelas com comida e colheres são colocadas em seus colos. A comida? Um montante de larvas vivas. É isso aí. Tendo corpos eficientes no metabolismo de proteínas, elas não precisam de mais nada além disso. Quando acabam, as tigelas são levadas e os soldados saem, trancando as portas e deixando-as no escuro. Ali, um spray químico cai do teto sobre os seus corpos, e depois de meia hora, os soldados voltam e as levam de volta para suas celas.
O que seria esse spray? Algo chamado de bloqueador-E. Os humanos o usam para que possam mascarar os seus cheiros, podendo assim, permanecer no mesmo ambiente que as crianças famintas, sem serem alvos de sua fome. E o mesmo é jogado sobre elas, para que haja uma associação de cheiros entre eles.
E é nesse cenário todo que conhecemos e acompanhamos a jornada de Melanie em “A menina que tinha dons”, uma garotinha faminta, de aproximadamente 10 anos, considerada uma gênia entre os seus, sendo muito boa em todas as aulas que são dadas. Aulas de tabuada, ditado, fatos históricos, datas, tabelas e equações, alguns professores também leem livros e fazem perguntas sobre o tema. Melanie ama as aulas, anseia por elas, principalmente as da Srta. Justineau.
Helen é a professora que mais diversifica suas aulas. Lê livros e poemas, mostra figuras e conta suas histórias, toca flauta e conversa com as crianças. Ela é gentil e carinhosa com elas, porque ainda que não sejam mais vistas como humanos, segundo o que acredita, psicologicamente ainda são crianças. Órfãos que mal compreendem o que ou quem são, que não sabem nada sobre a própria história. Ela acredita que as reações das crianças estão dentro do espectro humano, cognitivo, emocional e associativamente, acredita que há alguma sanidade nelas. É a professora favorita de Melanie, por quem nutre um afeto.
No entanto, há aqueles, como o Sargento Parks e a Dra. Caroline, que questionam qualquer olhar humano direcionado a elas. Há quem enfatiza que são apenas cobaias, cujo cérebros serão dissecados a fim de se encontrar uma maneira de salvar o mundo. Há quem acredita que o fato desses famintos serem funcionais, os faz apresentar ainda mais perigo, pois acabam induzindo a empatia e com isso a aproximação, e com ela a manipulação, o que pode acabar fazendo do humano empático o mais novo alimento deles, sem nenhuma chance de defesa.

Em “A menina que tinha dons”, vemos todas essas opiniões entrando em conflito, todas muito bem argumentadas, uns visam a segurança, o prático, outros visam a ciência, o racional, e há aqueles que visam a psicologia, o emocional. Mas quem está certo? Qual visão de fato define toda a complexidade desses seres? É a Biologia que os determina? A consciência que possuem? E se forem capazes de amar? E se forem capazes de se controlar? E o que pode significar quando os não funcionais se dirigirem a um determinado lugar ou se prenderem a um determinado objeto que outrora tiveram valor emocional para eles? O que realmente determina a vida e a morte de um humano?
Um dia, durante uma aula, Melanie questiona sua professora Helen sobre seus pais, sobre o que teria acontecido com eles. Descobre ali que é órfã e todas as crianças compreendem que carregam a mesma história. Questiona então o que acontecerá com eles quando crescerem, se irão para a cidade, se terão algum lar. Helen demonstra tristeza diante da pergunta e Melanie temendo ter magoado aquela que gosta, lhe pede desculpas. Diante do ato, em um gesto de carinho, Helen acaricia os cabelos de Melanie.
Há um grande atrito entre Helen e o Sargento Parks, que presencia toda essa cena. Tendo passado muito tempo fora do perímetro de segurança, combatendo e sobrevivendo a muitos famintos, ele compreende o porquê seguir as regras é essencial, o porquê não se pode de maneira alguma baixar a guarda diante das cobaias. Seguir as regras mantém você a salvo. E para demonstrar isso, ele expõe parte de sua pele, livre do bloqueador-E, na frente das crianças, chocando elas próprias, que mal compreendem a fome que sentem, visto que não sabem o que são.
Melanie, percebendo o atrito entre os dois e com ânsia de proteger quem ama, achando que o Sargento Parks deixava Helen triste, enfrenta-o e expõe o que acredita ser verdade quando ele leva-a para a cela. Ele furioso com as ações dela, ao invés de soltá-la da cadeira, a mantém completamente amarrada e imóvel, trancando-a assim. Helen, quando descobre o ocorrido, corre até a cela de Melanie para libertá-la, mas nesse momento não há nenhum bloqueador-E sobre o seu corpo, e a corrida faz o seu cheiro se destacar ainda mais. Melanie sente fome.

Será que a visão da menina se transformando em um monstro prestes a devorá-la, mudaria o que Helen pensava acerca de todas as crianças? Ela realmente compreendia os riscos em que se colocava quando interagia com elas? Especialmente com Melanie? O que significa esse vínculo entre elas? Amor? Culpa? Ou simplesmente um olhar humano diante de todo o caos?
“A menina que tinha dons” nos mostra a Dra. Caroline empacada em meio as suas pesquisas e resultados. Acredita que precisa de um volume maior de material para que possa obter novos dados, para que possa perceber algo olhando um todo que não está enxergando olhando um a um. Para isso decide que irá dissecar e estudar o cérebro de metade das crianças que estão na base. E tendo em vista o comportamento destoante que Helen apresenta diante delas, e os atritos entre o que ambas pensam sobre o rumo de toda a pesquisa, decide que é Helen quem deverá escolher aquelas que irão para o abate.
Helen fica na mira da execução, pois é isso o que acontece com quem se recusa a seguir ordens ou quem não segue os procedimentos à risca ao lidarem com as crianças famintas. Estando sob uma jurisdição militar, basta uma denúncia para que seu fim seja anunciado. No entanto, quais escolher? Como escolher? Conseguiria lidar consigo mesma ao se tornar aquela que condenou a morte metade das crianças com quem convive? Mas elas já não estavam tecnicamente mortas? Aquelas que sobrarem, certamente farão perguntas, como ela poderia acalmar o medo e a insegurança que seriam visíveis nos olhos delas?
Helen não entrega os nomes, nem uma justificava para isso. Dra. Caroline decide agir por conta própria então, é uma situação urgente afinal. Há algo nas cobaias que retarda a disseminação do fungo, assim como os seus efeitos. E Melanie é quem mostra a menor deterioração, além de ter um QI de gênio. É por ela que decide começar.

Assim que o Sargento Parks chega para buscá-la, Melanie sabe que não voltará mais, assim como outras crianças que já sumiram. Ela implora para que possa ver a professora Helen antes de ir, mas ele se recusa a ajudá-la. Helen nota a ausência de Melanie na sala de aula, e já temendo o pior, questiona o Sargento Parks sobre onde ela está, e ele confirma que a garota foi a escolhida. Helen corre o máximo que pode, tentando chegar a tempo, antes que Dra. Caroline acabe matando a criança.
Seria possível salvar Melanie? E se enquanto Dra. Caroline e Srta. Helen brigassem por isso, a base fosse invadida por lixeiros? E se esses lixeiros estivessem vestindo armaduras estranhas, lambuzados em alcatrão para mascarar seus cheiros e com lanças, teasers e fogo eles conduzissem um montante de famintos, usando-os como armas contra o exército? Como lutar contra isso? Melanie teria uma chance de fugir?
“A menina que tinhas dons” nos mostra uma série de acontecimentos em meio ao caos que nos guia aos possíveis futuros para Melanie. O que ela entenderia ao ver tantos famintos e a reação deles a ela? E se ela finalmente experimentasse a carne humana? Conseguiria parar? Se controlar? E se tivesse que escolher entre salvar aquela que ama e comer? E se o único meio de sobreviver para além daquela guerra, fosse participar de um grupo onde a Dra. Caroline, o Sargento Parks e mais um soldado fizessem parte? Teria alguma chance de conhecer uma vida diferente ou seguiria fugindo e caçando como um animal selvagem?

Atravessando um mundo hostil, em busca de comida e abrigo, enquanto lidam com ameaças constantes de famintos e lixeiros, vemos o pequeno grupo sendo forçado a lidar não só com a perda de todos e tudo o que ficou para trás, mas também a encarar quem Melanie realmente é e do que ela é capaz, o que a existência dela pode significar para a humanidade. São forçados a lidar com coisas que sequer imaginavam que podiam acontecer com os famintos, árvores e frutos que nunca haviam visto, e o que tudo isso pode significar para o futuro do mundo.
Acredito que o maior valor de “A menina que tinha dons”, é o fato de usar esse mundo caótico como pano de fundo para discutir temas extremamente humanos. A infecção e todas as consequências dela são importantes para a trama, o enredo se desenvolve a partir disso, mas o que mais impacta nessa história são as questões que ela levanta. A reflexão intensa sobre humanidade, sobre o que nos torna humanos, o medo do desconhecido, nossa capacidade de sobrevivência, nossa capacidade de compreender e amar, sobre os limites que devemos ou não ultrapassar quanto a tudo isso.
Melanie é uma extraordinária contradição, a inocência de um lado e o perigo mortal do outro. Essa dualidade que ela representa, ameaça e esperança, presa e predadora, criança e experimento, enriquece muito a história. E a tensão entre os personagens que divergem sobre quem ou que ela é e até entre a Melanie e o que ela compreende de si própria e daqueles iguais a ela, carrega boa parte da carga emocional da história.
Melanie é doce, sensível, curiosa e muito inteligente. Ela observa o mundo com uma mistura de lógica e encantamento. Uma criança carente de afeto e que ao mesmo tempo compreende o medo que causa, muitas vezes ela mesma sente medo do que é capaz, porque sabe o quão brutal pode ser. Helen Justineau é o olhar humano da história, a mais empática, a protetora, a que confia no que mais ninguém consegue enxergar.
A Dra. Caroline é interessante e desconfortável ao mesmo tempo. Ela quer entender como e porque o fungo funciona diferente nas crianças. Age em nome da ciência e da sobrevivência da espécie, buscando um meio de compreender o que está acontecendo com o mundo e de curar aqueles que foram atingidos, o que a leva a tomar decisões difíceis, que podem ser questionáveis considerando a ética e a moral, mas até onde pode-se julgar alguém diante do desespero em frente ao caos desconhecido?
Já o Sargento Parks surge como uma figura rígida, direta e prática, o símbolo da segurança, mas também é um personagem repleto de camadas. Ele talvez seja, apesar de toda desconfiança, aquele que melhor representa o observar, conviver, compreender e quem sabe talvez aceitar. Nenhum deles está posto ali atoa, cada um representa uma maneira diferente de enxergar a Melanie e as crianças famintas, por consequência, uma maneira diferente de enxergar o mundo atual e o seu futuro.
A narrativa de “A menina que tinha dons” mistura tensão, horror, ficção cientifica e drama de forma equilibrada. Possui um ritmo ágil que não sacrifica a construção emocional da história e de seus personagens. Há boas cenas de ação e perigo, que se casam perfeitamente com os momentos mais silenciosos de introspecção, que nos permite compreender a percepção dos personagens até sobre os pequenos detalhes.
Aliás, o fato de alternar as perspectivas entre os capítulos, é uma das coisas que eu mais gosto. Nos permite enxergar um todo da história e ao mesmo tempo as individualidades e conflitos internos de cada personagem, compreendendo o porquê de suas ações e reações. Não é uma história que se divida facilmente entre quem é monstro e quem é bonzinhos. Todo mundo de alguma maneira está buscando sobreviver e tentando fazer o que acha ser mais certo diante das circunstâncias.

O diferencial de “A menina que tinha dons” está na maneira como o livro desconstrói o clássico das histórias de zumbis. O horror aqui não está apenas naqueles que foram infectados e no que podem fazer ou no quanto o mundo ficou destruído por isso, também se encontra na maneira como os sobreviventes escolheram lidar com a situação frente as crianças famintas, justificando para si mesmos que estão lutando por um bem maior.
O livro funciona como uma espécie de crítica à ideia de que a humanidade precisa ser preservada a qualquer custo, mesmo quando e se esse custo negar humanidade a outros seres tão ou mais conscientes do que nós. É uma história provocativa, sem soar como um debate filosófico, que mantém o leitor preso em suas páginas, envolvido pela trama enquanto semeia essas questões incômodas.
“A Menina que Tinha Dons” é forte, sensível e surpreendente. Como eu disse, é ideal para quem gosta de distopias e também de ficção científica, mas que talvez esteja procurando algo com uma profundidade emocional maior do que simples cenas de sobrevivência.
Mais do que uma história sobre o fim do mundo, é uma história sobre transformação, de opiniões e certezas, de sentimentos e comportamentos. É sobre o medo do novo, do desconhecido, e o quanto estamos dispostos a combatê-lo ou conhecê-lo e compreendê-lo. É sobre a possibilidade de que o futuro talvez não pertença exatamente a quem imaginamos.
“A menina que tinha dons” é uma história tensa e tocante, que reforça muitos tipos de coragem. Coragem para ser quem se é, para seguir com as suas convicções, coragem para conhecer e compreender, para se adaptar. Se interessou? Dá uma chance. Leia e depois venha aqui me contar o que achou.
Curiosidades
M. R. Carey é um consagrado roteirista de quadrinhos, trabalhando para grandes editoras como a Marvel (X-men) e a DC (HellBlazer – John Constantine), e isso certamente influencia no desenvolvimento da trama de “A menina que tinha dons“, tanto no seu visual quanto em seu fluxo de eventos.
A história de a “A menina que tinha dons” surgiu a partir de um conto escrito pelo autor, intitulado como “Ifigênia em Áulis”. Esse conto ganhou o Prêmio Edgar Allan Poe, em 2013. Além disso, o título original da obra faz referência ao mito de Pandora, que combina muito com a proposta da história. E a infecção descrita no livro baseia-se em um fungo real, o Ophiocordyceps unilateralis, que de fato controla formigas na natureza.
M. R. Carey escreveu o livro “A menina que tinha dons” simultaneamente com o roteiro do filme. Aqui no Brasil é possível encontrá-lo com dois nomes, “A menina com todos os dons” ou “Melanie: A última esperança”. O filme foi lançado em 2016, sob a direção de Colm McCarthy, com Sennia Nanua no papel de Melanie, Gemma Arterton como Helen Justineau e Glenn Close como a doutora Caldwell.
E o livro “A menina que tinha dons” possui uma sequência, “O menino na ponte“, onde o autor explora mais sobre o mundo pós-apocalítico que ele criou e o desespero dos humanos em busca da cura da infecção, sob a ótica de outros personagens.





