
Título: Flores para Algernon
Autor: Daniel Keyes
Tradução: Luisa Geisler
Capa: Adalis Martinez
Editora: Aleph
Ano: 2018
Páginas: 288
Classificação Indicativa: 14 anos e acima
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Sinopse
Em “Flores para Algernon”, uma cirurgia revolucionária que promete aumentar o QI dos pacientes é inventada pelos pesquisadores de uma universidade. A técnica já foi testada em Algernon, um rato de laboratório, e teve resultados bastante satisfatórios. É nesse contexto que Charlie Gordon, um homem com deficiência intelectual severa, é selecionado para ser o primeiro humano a passar pelo procedimento.
Quando o tratamento surte efeito, a inteligência de Charlie aumenta a ponto de ultrapassar a dos médicos que idealizaram o projeto. O experimento é um avanço científico sem precedente, e a evolução de Charlie impressiona todos ao seu redor. Mas a inteligência traz também a percepção de que a realidade talvez não seja tão inocente e agradável quando ele pensava, e Charlie começa a refletir sobre suas relações sociais e até o papel de sua existência.
Livro “Flores para Algernon”
Inteligência e educação sem doses de afeto humano não valem droga nenhuma.
Existem livros que nos colocam frente a um espelho e nos fazem questionar a maneira como enxergamos e agimos diante de algumas situações. “Flores para Algernon”, de Daniel Keyes, com toda delicadeza e sensibilidade que carrega, nos leva até uma história ingênua e profunda. Nos fala sobre identidade, solidão, desejo de pertencimento, a importância do autoconhecimento e sobre se doar. Nos fala sobre os limites da própria condição humana, sejam eles intelectuais, emocionais ou sociais, nos fala sobre o ser humano e sobre a humanidade. Comovente e desconfortável. Uma leitura poderosa.
O livro “Flores para Algernon” acompanha a trajetória de Charlie Gordon, um homem de 32 anos que possui uma deficiência intelectual (QI de 68). Ele trabalha na padaria Donners há 17 anos, nunca se atrasando ou faltando, fazendo a limpeza do local e algumas entregas. Leva uma vida cercada de rotinas simples, com o modesto sonho de se tornar inteligente e uma necessidade enorme de se sentir aceito.
Chegou até a padaria através do seu tio Herman, com quem morou por muito tempo. Seu tio era melhor amigo de Arthur Donner, e pediu a ele que deixasse Charlie trabalhar lá e que cuidasse dele da melhor maneira que pudesse. Quando Herman veio a falecer, Arthur jurou ao amigo e a si mesmo que, enquanto tivesse condições, Charlie sempre teria um emprego, onde dormir e o que comer. Não permitindo que ele passasse uma noite sequer na Residência Pública e Centro de Treinamento Warren, onde sua mãe o havia deixado e esquecido.
No trabalho, Charlie tinha por seus amigos, Joe Carp, Frank Reilly, Gimpy e Fanny Birden, além de Arthur é claro. Um dia questiona Joe sobre como ele havia aprendido a ler e a escrever, pensando que talvez pudesse tentar o mesmo método para ficar inteligente. Joe diz que não é possível para Charlie, mas Fanny, ao ouvir a conversa, entrega para ele o nome e o endereço da Universidade Beekman, onde possui uma clínica como centro de educação experimental para pessoas com deficiência intelectual, o Centro para Adultos Retardados (termo utilizado no livro).
Ali na universidade, Charlie passa a ter aulas 3 vezes por semana, após o final do seu expediente no trabalho. E é onde ele conhece Alice Kinnian, sua gentil e doce professora, e por consequência, Harold Nemur, presidente do Departamento de Psicologia, Doutor Jayson Strauss, Psiquiatra e Neurocirugião do Centro Neuropsiquiátrico, Burt Selden, estudante de pós-graduação que realiza testes de inteligência na universidade e Algernon, o ratinho de laboratório que passou a ser peça central na pesquisa sobre o aumento de inteligência através de uma psiconeurocirurgia.
Em “Flores para Algernon” vemos que dentro do experimento científico elaborado por Nemur e Strauss, financiado pela Fundação Wellberg, o ratinho se saiu muito bem na cirurgia e em todos os testes aplicados depois por Burt e os resultados positivos estavam perdurando por um tempo considerável, a ponto de ser discutível a ideia de aplicar a cirurgia em um humano com baixo QI. E é aí, que Alice indica Charlie para os testes que precisam ser feitos antes da cirurgia, apresentando-o como o melhor aluno de sua turma.
Ao surgir a oportunidade de participar de uma cirurgia experimental para aumentar a sua inteligência, é óbvio que Charlie aceita com muito entusiasmo. Sempre que ouve os funcionários da padaria conversando sobre diversos assuntos, ele quer muito fazer parte daquilo, entender tudo e conversar com eles. Para ele, se tornar inteligente significa que as pessoas vão gostar de você, o que vai fazer você ter amigos e então deixar de ser solitário.
Vemos em “Flores para Algernon”, que após inúmeros testes aplicados em Charlie, onde em alguns ele compete com o próprio Algernon, Nemur segue tendo receios sobre utilizá-lo na cirurgia, mas Strauss destaca que há em Charlie algo difícil de se encontrar em pessoas com níveis tão baixos de QI, a motivação e o interesse, normalmente são pessoas difíceis de se acessar, mas Charlie carrega uma ansiedade grande em agradar, e que isso pode fazer a diferença durante todo o processo. É assim que ele se torna o primeiro ser humano a ter a inteligência ampliada por meios cirúrgicos.

Os resultados não surgem de maneira instantânea, é algo mais lento e gradativo, sendo assim, Charlie segue com a sua rotina na padaria, ninguém ali sabendo sobre o experimento que está participando, acreditam que ele estava doente e que precisou se ausentar por uns dias até que ficasse bem. Nemur foi quem pediu segredo total sobre todo o processo, seja no pré ou no pós cirúrgico, afinal ele não tinha garantias do quanto tudo iria funcionar ou como iria funcionar.
Charlie seguia treinando com Algernon no laboratório, bem como repetia todos os testes que já havia feito antes da cirurgia e fazia terapia com o Strauss. Escrevia, desde o início de tudo, em relatórios de progresso, o que estava acontecendo com ele, o que vivia no seu dia a dia, como se sentia, o que percebia e como compreendia tudo ao seu redor e a si mesmo. Charlie achava que continuava o mesmo, que a cirurgia não tinha funcionado, mas é notável para os leitores as pequenas mudanças acontecendo e não tarda para que os demais na história também notem algo de diferente.
Certo dia, funcionários da padaria incentivam Charlie a mexer na batedeira, algo até então proibido para ele, com a intenção de que ele tentasse e quebrasse, assim teriam o dia de folga. Mas Charlie havia observado um antigo funcionário trabalhando com a batedeira desde que retornará ao trabalho, sabia como fazer. Chocando a todos, ele não só soube operar a máquina, mas bateu a massa melhor do que o antigo funcionário. O que acabou lhe rendendo uma função nova, um aumento de salário e a frustração e desagrado daqueles que contavam com o seu fracasso.
Em “Flores para Algernon”, vemos Charlie aprendendo e adquirindo cada vez mais conhecimentos, em diversas áreas, dos mais simples aos mais complexos. E também vemos Charlie conhecendo mais sobre si mesmo através de memórias que começam a surgir. Momentos que antes não havia compreendido quando aconteceram, passam a retornar a sua memória e então ele começa a entender o que de fato viveu, o que sentia e porque sentia…
Memórias sobre os pais e sobre toda a dinâmica familiar. Quais eram as opiniões e comportamentos do seu pai. Como a sua irmã mais nova o via. Como a mãe era antes da chegada dela e como passou a ser depois. Tudo o que sua mãe exigia dele e como exigia, como a família o enxergava e como o tratavam. Memórias sobre a escola e sobre as crianças que conviviam com ele. Memórias sobre o trabalho e sobre as situações constrangedoras em que seus colegas dali o colocavam.
“Flores para Algernon”, nos mostra que ele passou a lembrar do que falavam sobre ele e como falavam, e a entender o que as palavras significavam. Acreditava que tinha amigos e que ele sempre ria com eles, que se divertiam juntos, mas passou a compreender que só gostavam de ter ele por perto para que pudessem rir dele. Todos riam dele e não com ele. Passou a compreender que por vezes, inconscientemente, riu de si mesmo junto com eles, e isso era o que mais doía.
O que pode acontecer quando o crescimento intelectual ultrapassa o crescimento emocional? Um homem adulto com uma mente brilhante, uma inteligência que não pode ser calculada, e ao mesmo tempo, quando se trata do seu emocional, apenas um menino assustado e perdido. É possível encontrar um equilíbrio? Aonde a inteligência te leva quando você não desenvolve o discernimento e a tolerância? Como as pessoas lidam com alguém extremamente inteligente? Se sentem inferiores ou passam a admirar? E as pessoas que sempre te conheceram? O que acontece quando a sua existência enfatiza as inadequações de alguns?

“Flores para Algernon” nos mostra a Convenção Internacional de Psicologia, onde o experimento realizado por Nemur e Strauss, juntamente com Burt, é apresentado para o mundo, tendo Algernon e Charlie como amostras centrais. Um ao lado do outro, sentados juntos com os criadores do experimento, eles ouvem e assistem todo o processo pelo qual passaram, incluindo fotos e vídeos que foram tiradas e gravados sem o seu conhecimento.
Charlie esperava ser exposto tal qual Algernon, um animal na jaula, mas e se isso acontecesse colocando-os como um experimento recém-criado? Animais experimentais que nunca existiram fora do laboratório. Charlie existia antes da cirurgia. Ou não existia? Charlie sempre foi um ser humano com ou sem cirurgia. Ou não foi? Ele era, afinal, a soma de toda a sua vida ou apenas dos últimos meses após a cirurgia?

E se ao ouvir e assistir tudo, Charlie, que já havia ultrapassado em nível de inteligência todos ao seu redor, percebesse um erro cometido por aqueles que criaram todo o experimento? Um erro que ninguém mais notou. Seria possível compreender, quantificar e reparar o erro? O que tinha a ganhar com isso? O que tinha a perder? E se um ratinho fosse solto no meio de uma convenção?
“Flores para Algernon” nos mostra a importância do tempo para Charlie. Há tanto para aprender, pensar e compreender sobre o mundo e sobre si mesmo, principalmente sobre si mesmo. E se Charlie encontrasse o pai novamente? E a irmã? E se ele se visse frente a frente com a sua mãe? E se Charlie encontrasse o amor? Como encarar o início de um mundo totalmente novo? E como encarar o fim de um mundo conhecido? Com a mente e o coração que Charlie possui, que mudanças será que é capaz de fazer?

A história toda é narrada de maneira epistolar pelo próprio Charlie, por meio dos relatórios de progresso que ele escreve. Um recurso que faz toda a diferença na experiência de leitura, visualmente e emocionalmente falando.
Visualmente, porque fica nítido para os leitores quando as mudanças começam a acontecer, a escrita vai se transformando, os erros ortográficos sumindo e as frases simples, sem pontuações, vão dando lugar a sentenças completas e bem elaboradas. E emocionalmente, porque há uma imersão profunda na subjetividade do personagem, conforme a mente dele expande, a percepção sobre o que acontece a sua volta, antes muito limitada, aumenta e amadurece, e é possível acompanhar tudo de dentro da mente dele, exatamente como ele enxerga e sente, é quase como se possível viver a transformação junto com ele.
O enredo de “Flores para Algernon” cresce de maneira gradual, mas sem nunca perder a sua força, pelo contrário. O que começa como um experimento científico, onde o foco é o aumento da inteligência e a maneira como ela pode transformar a vida de uma pessoa positivamente, logo passa a trazer discussões muito mais delicadas, revelando os impactos sociais, emocionais e até mesmo existenciais que ela pode causar, tanto para a pessoa que fez a cirurgia quanto para quem está a sua volta.
O livro traz luz sobre o modo como a sociedade enxerga e trata quem considera inferior, principalmente intelectualmente. Muitas relações pautadas em pena, deboche ou condescendência. Muitos fingindo se importar, mas poucos, de fato, se doando para ajudar ou mesmo amar. É doloroso ver Charlie descobrindo sobre isso, mas também serve como um espelho para questionarmos a nós mesmos sobre como estamos agindo.

O livro nos mostra, com muita sensibilidade, que a inteligência e a conexão humana necessariamente não caminham juntas. Conhecemos com essa história, os dois extremos do que é ser excepcional e a solidão que acompanha ambos. No primeiro extremo, a solidão surge por não se compreender o mundo, é de alguma maneira diferente de todos, inferior aos olhos deles, gerando o afastamento. No outro extremo, ela surge justamente por se compreender demais o mundo, é de alguma maneira diferente de todos, superior demais aos olhos deles, gerando ressentimento.
Há também uma grande reflexão sobre a ética científica em “Flores para Algernon”, não em discursos exagerados, mas deixando no ar perguntas que são incômodas. Até onde a ciência pode ir quando lida com seres humanos? Com a psique, emoções e identidade de alguém? Quais são os limites e controle sobre a experimentação? Quais são as responsabilidades? Quais os reais interesses em certas pesquisas? Quem está no comando, está fazendo de fato algo para o próximo ou é para si mesmo?
Toda a trajetória de Charlie é construída com muita humanidade, vulnerabilidade e profundidade. Não é apenas sobre acompanhar uma mudança intelectual, é sobre acompanhar toda uma transformação emocional, psicológica e social. É sobre alguém em busca de amor, reconhecimento e sentido. É alguém descobrindo e lidando com os seus conflitos internos. É uma jornada complexa e dolorosa, onde o afeto e a crueldade as vezes aparecem lado a lado. E Algernon ocupa um papel simbólico importante, não esta ali apenas como parte de um experimento, mas esta como um espelho silencioso da trajetória do próprio Charlie.
A atmosfera do livro “Flores para Algernon” é algo que oscila entre ternura, desconforto e tristeza. Há uma certa ingenuidade em alguns momentos que acaba por trazer uma delicadeza ímpar para a história. Já em outros momentos, a leitura pesa emocionalmente, se tornando quase sufocante. Mas isso não se dá por Keyes exagerar no drama, pelo contrário, é como se ele deixasse uma experiência humana falar por si só.
“Flores para Algernon” é um livro que nos leva a pensar em várias direções, as vezes ao mesmo tempo. Nos fazendo questionar o valor que damos à inteligência, a maneira como julgamos e tratamos a dignidade das pessoas e a crueldade que permeia muitos comportamentos tidos como socialmente normais. Nos leva a uma reflexão dura sobre a consciência e a ignorância. Não é um livro que apresenta respostas prontas, ele abre feridas emocionais e filosóficas que ecoam mesmo depois de fechá-lo, sei que foi assim para mim. Não é uma leitura que eu coloco como leve, nem acho que essa seja a pretensão do livro, afinal o desconforto gerado é o que o torna memorável.
É uma obra inteligente e sensível, triste e delicada, profundamente humana. Vai além de mera ficção científica, mergulha em temas pesados e que são universais, a exclusão social e a falta do olhar humano, a ausência de afeto e a busca por uma identidade, bem como as dores causadas por tudo isso. Não carrega excessos dramáticos e nem reviravoltas chocantes, mas mexe muito com quem lê, certamente mexeu comigo, imagino que pela maneira como mostra a fragilidade humana em diferentes camadas.
“Flores para Algernon” é daquelas histórias que marcam e impactam, com uma força emocional absurda. Da delicadeza à tristeza, é uma história necessária. Se interessou? Dá uma chance. Leia e depois venha aqui me contar o que achou.
Curiosidades
“Flores para Algernon“, de Daniel Keyes, foi publicado pela primeira vez em 1959, no formato de um conto e chegou a ganhar o Hugo Award, um dos prêmios mais importantes dentro do gênero de fantasia e ficção científica. Depois, em 1966, Keyes expandiu a história e a publicou “Flores para Algernon” como um romance epistolar, ganhando então o Nebula Award, premiação que consolida obras do gênero de fantasia e ficção científica publicados nos Estados Unidos.
Keys teve a ideia inicial dessa história quando ainda trabalhava para Stan Lee, escrevendo roteiros de quadrinhos, mas a manteve guardada, enquanto reunia e estudava conteúdos para o seu desenvolvimento. Até que um dia, enquanto lecionava inglês para uma turma especial de jovens com deficiência intelectual, um estudante lhe procurou, perguntando se poderia se tornar inteligente caso se esforçasse o bastante. Sua principal inspiração para história veio da comoção desse momento.
“Flores para Algernon” recebeu muitas adaptações ao longo dos anos, entre as quais, um filme dirigido por Ralph Nelson em 1968, “Os dois mundos de Charly“, e uma peça musical da Broadway, “Charlie e Algernon“, em 1978.
Nessa edição em específico de “Flores para Algernon”, além de ser belíssima, você encontra uma nota da tradutora onde ela conta muitas dessas curiosidades e também encontra um QRcode que te leva até a “Órbita”, uma plataforma de conteúdo expandido da Editora Aleph, que oferece materiais exclusivos sobre o livro, como vídeos, textos, entrevistas, e até mesmo playlists.





