
Filme: Melanie: A última esperança
Direção: Colm McCarthy
Produção: Camille Gatin e Angus Lamont
Roteiro: M. R. Carey
Produtora: Poison Chef, Altitude Film Entertainment, o BFI Film Fund e Creative England
Baseado em: Livro “A menina que tinha dons”, de M. R. Carey
Ano de lançamento: Agosto de 2016
Tempo de duração: 1h 51m
Classificação indicativa: 16 anos
Onde assistir: YouTube; PrimeVideo; Netflix
Sinopse
O filme “Melanie: A Última Esperança” se passa em um futuro distópico onde um fungo devastou a humanidade, transformando as pessoas em “famintos” (zumbis) sem livre arbítrio. A esperança de cura reside em um grupo de crianças híbridas que, embora sintam desejo por carne humana, mantêm a capacidade de pensar e sentir.
A trama acompanha Melanie (Sennia Nanua), uma garotinha excepcional e muito inteligente, mantida em uma base militar onde sofre experimentos cruéis da Dra. Caroline Caldwell (Glenn Close). A professora Helen Justineau (Gemma Arterton) cria um vínculo afetivo com a menina, tratando-a como humana. Quando a base é invadida, o trio fogi com a ajuda de um sargento, embarcando em uma jornada de sobrevivência para encontrar abrigo e respostas
Filme “Melanie: A última esperança”
“Elas só querem viver. É o que todos querem”
“Melanie: A última esperança”, dirigido por Colm McCarthy, é baseado no livro “A menina que tinha dons”, de M. R. Carey, que também é responsável pelo roteiro do filme. Lançado em 2016, o longa é uma mistura de ficção científica, terror e drama. Aparenta ser só mais um filme sobre zumbis e a busca caótica pela sobrevivência, mas vai além disso, assim como a obra literária, ele aborda sobre a evolução das espécies e sobre a humanidade, deixando uma incômoda pergunta no ar: “E se o futuro do mundo pertencer a outros bem diferentes de nós humanos?
A história de “Melanie: A última esperança” se passa em um futuro pós-apocalíptico, onde uma infecção, ocasionada por um fungo, se espalhou e transformou milhares de pessoas em criaturas extremamente agressivas. O fungo tomou conta de seus cérebros, eliminando qualquer resquício de humanidade, fazendo dos humanos apenas hospedeiros enquanto ele completa todas as fases de sua evolução.
Os humanos contaminados por essa infecção, segundo a ciência, passam a ser apenas cascas vazias, perdendo todo o raciocínio lógico e a capacidade de afeto. E ainda que permaneçam em bandos, vivem de maneira estática, ficando completamente parados até que algo, um barulho ou um cheiro, desperte o instinto da fome, uma fome incontrolável que a infecção provoca, daí o nome que carregam, famintos.
O alimento? Qualquer coisa viva. Isso quer dizer humanos? Exatamente. A forma de contaminação? Fluídos corporais, principalmente pela saliva. Então as mordidas são altamente perigosas? É isso aí. Criaturas incontroláveis com uma fome insaciável. Já deu para entender o quão caótica a situação do mundo ficou em “Melanie: A última esperança”, não é? Mas e se existisse uma chance de cura?
Depois que a infecção se espalhou e o caos tomou conta, os poucos que sobraram tentaram se refazer, buscando uma maneira de sobreviver. Soldados costumavam ir para outras cidades fazendo buscas, e num dia acabaram encontrando um hospital, uma ala de maternidade mais especificamente. E ali descobriram recém-nascidos famintos, rodeados por mães completamente ocas por dentro.
Em algum momento, aquelas mães foram contaminadas estando grávidas, fazendo com que os embriões contraíssem a infecção através da placenta. E quando o momento chegou, os pequenos famintos forçaram a sua própria saída, comendo suas mães por dentro. Surgindo aí, uma segunda geração de famintos. Ainda que o fungo esteja em volta de todo o cérebro das crianças, elas parecem ter uma imunidade parcial ao patógeno da fome. Ainda são agressivas e precisam se alimentar, mas são capazes de pensar, raciocinar e contra toda lógica, sentir.
Uma base militar é criada e cercas são colocadas a sua volta. Crianças famintas são capturadas e trancafiadas em celas. Elas são alimentadas com larvas e instruídas por professores em diversos assuntos. Em todo o tempo, a todo momento, elas são avaliadas do psicológico ao comportamental. E de tempos em tempos, uma é escolhida para ter seu cérebro aberto e dissecado. Uma pesquisa surgiu. O foco dela? Uma vacina para salvar todos os humanos. Mas qual é o custo disso?
É aqui que, “Melanie: A última esperança”, nos apresenta sua protagonista, uma garotinha faminta extremamente inteligente, curiosa, carismática e carente de afeto, a pequena Melanie. Através dela conhecemos a rotina que as crianças possuem na base. As celas, os soldados gritando pelo corredor e a preparação que elas precisam fazer para a entrada deles. Os soldados armados o tempo todo e a maneira como são presas e locomovidas em cadeiras de rodas. A alimentação e o efeito que ela causa, bem como as aulas que lhes são dadas e os efeitos que a breve convivência com todos a volta causa sobre elas.
Todos os humanos que trabalham na base usam uma pomada, uma espécie de bloqueador de cheiro, para que possam estar com as crianças, sem que isso lhes desperte a fome incontrolável. É uma das regras vitais que a base possui para garantir a segurança das pessoas que ali estão. Bem como não se aproximarem fisicamente ou emocionalmente delas. Pois ainda que se pareçam inofensivas e despertem facilmente a empatia, continuam sendo criaturas que devorariam cruelmente qualquer um deles.
No entanto, nem todos pensam assim. Ainda que se tenha a Dra. Caroline Caldwell, que as enxerga apenas como cobaias, ferramentas para a cura da infecção e sobrevivência da espécie humana. Ou o Sargento Parks que as enxerga unicamente como perigo, que precisam ser sempre temidas e abatidas rapidamente. Tem-se também a Professora Helen Justineau, que as enxerga como crianças, ainda que carreguem um perigo iminente. Crianças que estão só no mundo e que mal compreendem quem são.
Helen é quem mais se aproxima das crianças, quem é gentil com elas e quem dá as aulas mais diferenciadas, como ler histórias ou permitir que elas criem as suas próprias histórias. Melanie é completamente encantada pela professora e não demora para que um vínculo seja criado entre elas, um vínculo de afeto que certamente desperta o horror de muitos e um grande atrito entre Helen e o Sargento Parks, bem como entre Helen e a Dra. Caldwell.
“Melanie: A última esperança”, nos mostra o dia em que a Dra. Caroline decide escolher Melanie como a resposta para todo o mistério. É o cérebro dela que será dissecado e estudado para a busca de uma vacina. No entanto, o dia escolhido para tal procedimento é um dia bem caótico na base, visto que os soldados estão atarefados demais lidando com famintos em volta de toda a cerca, que buscam uma brecha para que possam entrar e se alimentar de todos que estão ali.
A Dra. Caroline, com Melanie já presa a sua mesa de cirurgia, decide ignorar todos os alarmes de segurança e seguir com o procedimento, sem contar que Helen também fosse ignorar os alarmes, as regras e tudo pelo que ela estava lutando, apenas para invadir o seu laboratório e salvar aquela cobaia, mesmo no meio de todo o caos.
Elas se confrontam, soldados são chamados, Helen é retirada e Melanie segue presa a mesa. As cercas arrebentam, os famintos invadem todos os lugares rapidamente, incluindo o laboratório. A Dra. Caroline luta e consegue se esconder, mas fica com a mão gravemente ferida no processo. Melanie consegue se soltar e foge do laboratório, vê soldados punindo a Professora Helen e então os ataca para defendê-la, no instinto, salta sobre eles e os come, sentindo o prazer da carne humana.
Helen a pega no colo em meio a todo o caos e busca um jeito de salvá-la, um carro sob o comando do Sargento Parks e de mais dois soldados se aproxima, atropelando famintos que estavam prestes a devorá-las, as portas se abrem e elas entram. Acreditam estar seguras, mas lá dentro, encontram a Dra. Caroline.
Como Melanie pode sobreviver sozinha em um mundo que nunca chegou a conhecer? Um mundo completamente destruído? Como ela pode sobreviver ao lado daqueles que a temem e querem matá-la? Como poder ser útil para eles a ponto de prolongar a sua vida? Ela está de fato viva?
Como eles podem garantir a sua própria segurança andando junto com aquela que os tem como alimentos? Como podem sobreviver sem nenhuma ajuda em um mundo tomado por famintos? Onde encontrar abrigo e comida? O que acontece quando cada um tem um objetivo diferente? Em quem confiar? O quanto confiar? Tantos perigos externos, tantos conflitos internos…

O que pode acontecer se e quando Melanie criar consciência sobre quem e o que ela é? O que sua existência representa para o mundo? O que pode acontecer quando o fungo atingir o último estágio de sua evolução dentro do corpo humano? O que mais ele seria capaz de fazer depois de consumir completamente o cérebro humano? Até onde a consciência, o raciocínio ou a capacidade de amar podem se sobrepor ao instinto da fome e da sobrevivência?
O terror em “Melanie: A última esperança” não está apenas nos famintos que invadem a base e dominam as ruas, se alimentando e transformando os poucos humanos que sobraram em mais famintos, mas também está nas escolhas que os sobreviventes fazem para que possam continuar existindo. Nos limites ao quais são capazes de chegar para que a sua espécie seja aquela que vai se salvar.
O que de fato nos torna um ser vivo? Consciência? Raciocínio lógico? Capacidade de afeto? Capacidade de reproduzir? Até onde podemos dizer que nós é que carregamos o que definimos como humanidade, quando enxergamos valor apenas na nossa espécie? O objetivo final sempre justifica os meios quando se trata da nossa sobrevivência e preservação? Ainda que diga que não seja uma conversa sobre ser bom ou ser mal, limites existem, não é?
Com uma atmosfera sombria e violenta, carregando muitos dilemas morais, o filme acerta ao escolher mostrar esse mundo pós-apocalíptico por um ângulo diferente, o olhar de uma criança. Melanie é sim uma ameaça perigosa, mas também é doce e sensível, curiosa sobre o que e quem está a sua volta. Não é completamente humana, mas também não dá para reduzi-la a completamente monstro. Existe uma certa inocência em meio a todo o horror que de fato mexe com a gente, nos lembrando que mesmo na mais caótica situação, ainda pode existir espaço para a empatia e que o desconhecido só é temido até que você decida conhecê-lo e compreendê-lo.
Acho que todas essas nuances é o que torna o filme “Melanie: A última esperança” interessante. Não é uma história só sobre zumbis e busca por sobrevivência. É uma história sobre transformação. E não uma transformação ocasionada apenas pela evolução de uma espécie, mas uma transformação no pensar e aceitar, no modo de ver, compreender e sentir tudo a sua volta, o que já foi um dia e o que vai ser amanhã. Toda a transição de um mundo velho que se recusa a morrer para um mundo novo que começa a nascer.
O fim de um mundo é um tanto inevitável aqui e cada personagem representa uma maneira de enxergar e lidar com isso. Melanie, interpretada por Sennia Nanua, é o novo e diferente, aquela que anseia por viver e aprender, aquela que ama e quer ser amada, aquela que carrega a fascinante dualidade, inocência e perigo, que torna toda a história mais complexa.
Helen Justineau, interpretada por Gemma Artenton, é o olhar humano, a compreensão, o cuidado e o afeto em um ambiente dominado pelo medo e pela violência em nome da segurança. Dra. Caroline Caldwell, interpretada por Glenn Close, é a ciência levada ao limite pelo desespero. É aquela que acredita e que vai em busca da salvação da humanidade, mesmo que isso exija tomar decisões cruéis. A frieza de uma e a compaixão da outra contrastam entre si, criando um dos conflitos mais fortes da narrativa.
E sob essas duas óticas, vemos Melanie descobrir quem ela é. E aos poucos, com o desenvolver da história, deixando de ser aquela que é sempre observada pelos adultos e passando a ser aquela que observa e compreende os humanos, os famintos, o mundo e para onde tudo está se direcionando, com uma consciência própria, com um olhar próprio, aquela que mesmo sendo a menos humana entre os personagens principais, talvez seja a mais capaz de demonstrar o que é realmente humanidade.
“Melanie: A última esperança” é de uma maneira geral uma reflexão sobre o medo que nós humanos temos de perder o controle sobre o nosso futuro e até onde esse medo pode nos levar. Ele nos mostra como o desespero pode acabar nos fazendo esquecer do que é humanidade, ainda que para nós seja justamente por ela que estamos lutando. Nos mostra que ao lidarmos com o que ou quem julgamos ser os monstros, podemos também acabar nos tornando como eles, talvez até piores.
Enquanto adaptação literária, devo admitir que senti falta de um desenvolvimento melhor de alguns personagens ou da relação entre alguns deles, como também senti falta de algumas cenas de fuga mais insanas e caóticas, mas num todo, o longa é uma boa representação da história original. Segue não tratando o horror de uma maneira simples e carregando a mesma ambiguidade, ameaça e esperança andando lado a lado, o que acaba nos colocando num lugar interessante de desconforto.
“Melanie: A última esperança”, apesar de vir de um gênero muito conhecido e fazendo uso de todos os seus elementos, possui um “quê” a mais, ele faz do terror e do mundo pós-apocalíptico pano de fundo para se discutir temas mais amplos, a ciência e os seus limites éticos e morais, bem como a evolução, o medo e a aceitação de mudanças inevitáveis. A ideia de uma infecção fúngica e suas discussões cientificas se aproximarem tanto de uma possível realidade, acaba tornando o apocalipse apresentado mais orgânico e certamente mais inquietante de se ler os seus desdobramentos.
No fim, “Melanie: A última esperança” é uma experiência um tanto quanto nojenta, sombria, sensível e provocadora. Talvez a questão principal não seja sobre como salvar a humanidade ou mesmo se ela merece isso, mas se nós humanos estamos prontos para reconhecer vida, inteligência, afeto e dar valor a isso, mesmo quando isso não se apresenta de uma forma que nós esperamos. Não é apenas uma história sobre o fim de um mundo, mas é sobre o nascimento de outro.
Dê uma chance, assista e depois venha aqui me contar o que achou. E caso não tenha lido o livro “A menina que tinha dons”, eu recomendo muito, ele é tocante, cheio de personagens ambíguos e dilemas morais que nos levam a muitas reflexões.





